terça-feira, 16 de maio de 2017

Enquanto...


Imagem: Willy Leal 


Enquanto eu não for capaz 
de reconhecer minha condição no mundo,
e de perceber-me moldada por ele
e submetida a seus laços,
estarei distante, bem distante,
de dar passos no sentido 
de minha libertação...

Do mesmo modo,

enquanto eu não sentir à Luz Divina,
como condição do meu caminhar,
eu tendo, e tenderei,
a afastar-me e a negar
o caminho...

Usee




domingo, 14 de maio de 2017

DE VOLTA PARA A CASA - Yoskhaz



      
Quando virei a esquina e não vi a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos livros e dos vinhos, encostada no poste em frente à sua oficina, pensei que não estava com sorte naquele dia. Os horários improváveis e inusitados de funcionamento da sapataria já tinham virado lenda na pequena e charmosa cidade que fica ao sopé da montanha que acolhe o mosteiro. Eu estava triste. Desde sempre, o meu relacionamento com a minha mãe tinha sido complicado, como se amor e mágoa se alternassem no palco da vida, gerando memórias que acabavam por atrapalhar os dias a serem vividos. Tínhamos tido mais uma discussão e eu queria encontrar com o bom artesão. Eu precisava falar para lembrar o que já sabia e ouvir para aprender o que ainda não sabia. Era a hora do almoço e decidi ir a uma agradável cantina perto dali. Como se o acaso existisse, quando entro no restaurante me deparo com o sapateiro sentado à mesa com uma mulher mais jovem que ele. Eu não a conhecia. Quando me aproximei percebi que eles estavam de mãos dadas e tinham as faces molhadas em lágrimas. Recuei, mas ele me viu, abriu um sincero sorriso e me chamou. Me presenteou com um forte abraço e me apresentou a moça. Era a sua filha mais nova. Ela tinha saído muito cedo de casa, após muitas brigas com o pai, abandonara a universidade sem a devida conclusão e ficara anos sem dar notícias. Eu conhecia a história e sabia que Loureiro a procurara por muito tempo sem sucesso. Ela acabara de voltar. A alegria pelo reencontro transbordava em ambos.
Fomos apresentados e a jovem foi muito amável. Eles tinham terminado de almoçar, ela pediu a chave da casa para o pai; precisava de um banho e algum descanso. Feliz, se despediu. Loureiro disse para eu sentar e comer. Pediria mais uma taça de tinto para me acompanhar. A sós, o artesão me contou que a filha retornou após constantes decepções e frustrações pelas quais passara; vinha à procura de aconchego e auxílio. Comentei a excelente oportunidade para terem uma séria conversa e ele a enquadrar de maneira rigorosa, pois ela só o procurara porque o mundo lhe fora hostil. Ele arqueou os lábios em leve sorriso e disse: “Não, Yoskhaz. A vida já aplicou as lições mais duras, é a oportunidade de eu fazer a diferença, de mostrar a outra face. Ela precisa de compreensão e carinho. E de muito amor”.
Ele bebeu um gole de vinho e acrescentou: “Todos, na incompreensão de si mesmo, partem rumo a um país distante à procura de se encontrar, até entenderem que aquilo que buscam está em casa. Então, cedo ou tarde, retornamos”. Interrompi para dizer que não tinha entendido esta última parte. Ele explicou: “É uma viagem que todos, sem exceção, fazem. Alguns sentem a necessidade de viajar com o corpo; no entanto, todos a realizam em espírito, dentro de si”. Insisti que não compreendia. O sapateiro foi didático:
“A insatisfação e angústia têm raiz na fragmentação do ser. Divido entre os desejos do ego e as necessidades da alma, o ser alimenta dúvidas que dependendo do ponto em que já se conhece, de como consegue lidar consigo mesmo, com as suas próprias emoções, do refinamento das percepções e, por consequência, com a situação presente, será fator de paralisação, fuga ou de evolução. O fato desagradável pode gerar uma insegurança capaz de levá-lo à completa estagnação por se deixar dominar pelo medo; uma fuga pela dificuldade em equilibrar os instintos primários aos desejos mais nobres; ou a usar o momento para melhor entender a busca pela essência que o ilumina, na jornada pela superação das dificuldades, ora impeditivas”.
“Todos trazemos heranças sociais, culturais e ancestrais que compõem os arquivos tanto do ego quanto da alma. O ego está ligado aos prazeres imediatos e sensoriais, aos instintos impulsionados pelas sombras, aos aplausos, à segurança da vida pelo controle da vontade alheia, à dominação, à posse, ao brilho social. A alma é a parte do ser preocupada com o desenvolvimento das virtudes, aos sentimentos fraternos, a evolução, ao encanto da vida pela liberdade dos outros e de si próprio, ao desapego, a Luz pessoal. A cada escolha separamos ainda mais as partes ou aproximamos uma à outra, em processo de harmonização e, posterior, plenitude”.
“Em diferentes níveis, todos percebem essa divisão interna. Quanto maior o abismo, mais dolorosa a ferida. Uns preferem ignorar a cisão e concedem total poder às próprias sombras. São os que desejam dominar os outros, as situações que os cercam ou vivem em função de amealhar bens materiais; medo, egoísmo, vaidade e ganância são as sombras que dominam esses indivíduos; costumam estar rodeados por pessoas com iguais interesses em simulações de afeto e, embora neguem ou tentem disfarçar as aparências, são profundamente infelizes e amargos. Preste atenção, eles aparentam possuir grande força externa, se sustentam no orgulho da ilusão de se acreditar melhores, na arrogância de se sentirem poderosos, mas, no fundo, são frágeis e gostariam de pedir auxílio para sair do porão escuro em que se encontram. Nunca admitem os seus erros, restam estagnados. Caso em que o ego viajou para um país distante, longe de casa e não admite voltar. A alma é a verdadeira casa do ego, que insiste em negá-la, na busca pela felicidade em lugar longínquo, fora de si mesmo. Nesse momento, eles se tornam escravos das próprias sombras”.
“Outros, um pouco mais conscientes, optam por sufocar os instintos primários e as lembranças traumáticas em verdadeira guerra contra si próprios, na ilusão de esconder as sombras, com o risco de permitir a sua movimentação sorrateira e a perda inesperada de controle. Não raro as sombras se manifestam como explosões nervosas ou decisões incabíveis de pessoas aparentemente calmas e sensatas. ‘Não acredito que fulano fez isso, ele sempre pareceu tão equilibrado’, é a frase que costumamos ouvir nesses casos. Aprisionar as sombras é uma guerra inglória que acabará levando o individuo ao descontrole, a acessos repentinos de fúria ou a seguir para o outro lado, igualmente ruim, o da depressão, do desânimo ou do pânico. Intuem que precisam voltar para casa, mas ainda não sabem como. O ego está perdido na floresta das sombras. Desesperados, tentam fugir de si mesmo. Restam aprisionados, tendo as sombras como carcereiras”.
Alguns, no entanto, conseguem se olhar no espelho com sinceridade; estão dispostos ao mergulho profundo do autoconhecimento. Aceitam a existência das suas sombras e as abraçam com amor. A cada conselho oriundo do ego para o ser, a alma convida o ego para uma conversa carinhosa a fim de mostrar que sempre existem diferentes possibilidades. Como uma criança que precisa ser educada, sempre com amor, para se tornar um adulto melhor. Qualquer memória desagradável que traga culpa ou trauma, como nunca será esquecida, não deve ser castigada ou repelida quando se apresenta. Ao contrário, é uma excelente oportunidade para ser tratada com sabedoria, compaixão, humildade, equilíbrio, perdão e, principalmente amor, no trabalho incansável de mostrar que cada um agiu na medida exata da capacidade da mente e do coração naquele momento do processo evolutivo. Tanto você quanto o outro. Ao entender que o erro é permitido a todos na escola da perfeição, deixamos de nos envolver pela mágoa, que tanto corrói, ou nos abater pela culpa, que tanto paralisa, para assumir a responsabilidade de fazer diferente e melhor daqui por diante. Assim, iniciamos o trajeto de volta para a casa. No exercício de afinar o ego à alma para se tornarem uno, sempre tendo as virtudes como guia, a Luz acaba por dissipar, em definitivo, as sombras. Isto integraliza o ser e o liberta”.
“Quando desorientado, o ego parte para um país distante no anseio por encontrar o mel da vida. As experiências vividas, somadas à ampliação da consciência e à capacidade amorosa, o fazem perceber que a busca pelos bens valiosos e imperecíveis tem como destino o outro lado de si mesmo, a alma. Então, nesse dia, retorna à casa e acontece o grande encontro”.
“Este grau de equilíbrio se chama maturidade e se reflete na melhoria de todas as nossas relações. É a sedimentação da virtude da harmonia no ser e a possibilidade de viver em paz.” Acrescentou que a sua filha começava a viver esse último entendimento e concluiu: “O movimento interno sempre se reflete na atitude exteriorizada”.
Argumentei que era muito fácil se arrepender depois de ‘quebrar a cara’. Loureiro franziu as sobrancelhas e fez uma pergunta retórica: “Não é assim com todos?”, em seguida prosseguiu o raciocínio: “Como na parábola do filho pródigo, abandonamos a casa a procura do melhor que a vida tem a oferecer, iludidos quanto a essas riquezas e prazeres. As tempestades nos forçam a procurar um porto seguro. A volta para a casa marca a sedimentação da humildade no ser: apenas terá espaço para crescer aquele que se admite pequeno e se coloca ao dispor das lições. Ao entender que a conquista do tesouro é o desenvolvimento das próprias virtudes, o andarilho admite o rumo equivocado, faz meia volta e traz o ego para se afinar com a alma. Esta virtude, a humildade, permite iniciar o Caminho e será indispensável para atravessar o primeiro portal”. Tornando a se referir à filha, falou: “Tratá-la de maneia severa é fazer igual ao mundo. Estas lições ela já aprendeu. Recebê-la com amor é fazer diferente e melhor. É entregar o que ela precisa”.
Encerrou a taça de vinho e pediu licença para ir embora. Queria muito estar ao lado da filha. Me deu outro abraço e o vi sair da cantina, estava saltitante de alegria. Pedi uma torta de chocolate de sobremesa e me dei conta de como tudo aquilo se aplicava ao meu relacionamento com a minha mãe. Mesmo sem conversar sobre isso com sapateiro, ele havia me fornecido todas as respostas que eu necessitava. Já tínhamos sido muito rigorosos um com o outro; muitas cobranças e exigências, nenhuma paciência e pouco respeito em aceitar as diferenças e os limites do outro. Era hora de inverter aquele jogo e me permitir fazer diferente para que eu pudesse descobrir o melhor de nós dois. Corri para estação e comprei uma passagem no próximo trem. Iria almoçar com a minha mãe no domingo. Eu estava, de vários modos, voltando para casa. 
Outros textos do autor em www.yoskhaz.com
Autoria da imagem: Middle-earth: Shadow of War, Warner Bros.
Este texto está disponível em áudio no site. Gravação e voz de Paula Paulini Coelho.http://yoskhaz.com/pt/2017/02/08/de-volta-para-a-casa/

terça-feira, 15 de novembro de 2016

... Iguais sob e sobre o Amor... (Revisto)


                                      Postagem original em 18.08.2012 Rep: 14/06/13

Quem de nós, em algum momento, não ficou ou fica ofendido, ferido, magoado diante de alguma atitude ou comportamento de outrem?

“Sentimo-nos” assim e nos desequilibramos interiormente, entramos na vibração daquilo que entendemos ser uma crítica, injustiça, menosprezo, indiferença, mentira, etc.; vibração que os egos produzem no/em conflito entre si.

Nesta vibração criamos antipatias, rejeições, impaciências, olhamos o/os outro/s como débeis; incapazes, inferiores..., e deixamos de olhar para nós mesmos, para nossas reações, atitudes e comportamentos.

Somos “todos” suscetíveis de ser afetados, por mais que negamos! Do mesmo modo, somos suscetíveis de “produzir” nos outros tais desconfortos e imputar a eles tais vibrações.

Se somos afetados é porque “buscamos” nos outros aquilo que não somos capazes de encontrar em nós mesmos: verdade, sinceridade, justiça...

Mas, estamos atentos a isto?

Em que medida nos esforçamos para manter a paz com os outros, para estar em paz conosco?

Sabemos trazer o exemplo do Amor, que afirmamos observar e ver transparecer nas coisas (Criação), para nossas vidas, ou apenas admiramos a manifestação desse Amor, sem nos esforçar para cultivá-lo e propagá-lo, a partir de nós?

Damos conta, temos consciência, do que nos cabe segundo este Amor; do que nos cabe "igualmente" e indistintamente?



Apenas quando somos capazes de perceber e “sentir” (verdadeiramente) a Harmonia, a Verdade, Sinceridade e Unicidade de cada Ser Criado, manifestadas pela beleza, leveza e simplicidade de Ser o que são, é que podemos criar condições de olhar os outros (humanos) e perceber neles aquele lado Espiritual, Sincero e Íntegro, para além do que “apontamos” como defeitos...

Este é o caminho a percorrer, para além dos discursos e achismos, o caminho da percepção e do entendimento efetivo/verdadeiro, que precisamos ainda experimentar: percepção e entendimento de que, para além do "ego", há um Ser, fruto da Criação, partícipe do Amor...; entendimento de que é sob o Amor que precisamos nos assentar...


Usee