domingo, 18 de março de 2012

Sobre a "igualdade unilateral" - Um depoimento

 
     
Igualdade! 

Sabe que esta noção nunca esteve muito presente em minha vida e falas? É..., pensando bem sobre, me dou conta de que esta nunca foi nem nunca esteve muito bem resolvida aqui dentro de mim. Talvez por isso não seja assunto caro em meus escritos.

Esta “noção” nunca me disse muito. Aliás, esta e outras que a implica, nunca me causaram comoção, admiração, assim como nunca me despertou para um impulso de “luta pela igualdade”, por exemplo. Ceticismo? Será? 


 O que penso é resultado do que observo, do que tenho experienciado, do que tenho tomado conhecimento, de várias maneiras. E a igualdade, para mim, nunca conseguiu sair do discurso (em todos os tempos, e mais especialmente na modernidade e contemporaneidade, provocou muitos filósofos e muitas filosofias – as mais variadas). Os vários discursos sempre estiveram encerrados no campo da idealidade (a igualdade é ideal, é bonito pensar e falar dela!), e sempre permeou toda e qualquer reivindicação, e o desejo de todo mundo (de toda gente). 


Homens, Mulheres, instituições, governos, etc., todos engrossam a fila dos que “lutam” e “buscam” a igualdade, mas, não conseguem ultrapassar, sair do “discurso”, ou como se diz, “a igualdade não sai do papel”. Na prática, a igualdade não existe!

Resolvi escrever sobre isto porque fui instigada... Precisava refletir e registrar o refletido (coisa minha... rss). 


Dia desses estava a conversar com um amigo, esbarramos na questão da igualdade. Foi quando ele me falou da noção de “igualdade unilateral”. Ao escutá-lo fiquei pasma, em silêncio, sem jeito até, diante da ênfase que ele imprimia ao dizer o que significava. 


Enquanto o escutava me perguntava: que coisa! Como pode uma igualdade unilateral, uma vez que a unilateralidade por si só exclui a igualdade?... Como pensar uma e outra, sem ficar tonta e abismada?... Pois foi isto que me aconteceu, fiquei tonta e abismada! Mas o escutei (e tenho escutado)... Logo “caiu a ficha”, tive que concordar com o dito!... Claro que ele tem razão!
  
O que me desconcertou inicialmente me levou a refletir... Desde então, tenho procurado “rever meus conceitos”, o da igualdade especialmente, ainda que este não seja foco de minhas falas e reivindicações.


Todos nós estamos impregnados de conceitos concebidos culturalmente, e fazemos destes nossas verdades. A força com que eles incidem sobre nós parece ser irreversível pela forma como estão incrustados; determinando nosso “eu”, tanto que os tomamos como verdade (como nossa verdade) e os colamos em nós como uma segunda pele, e os repetimos automaticamente (feito autômatos); sem jamais pensar em seu significado. Talvez por isso estranhou-me escutar a idéia de “igualdade unilateral”.     


Não me lembro de ter deixado me atrair ou levar pela ideia de igualdade (fora da erudição acadêmica, quero dizer), pelo menos não de forma enfática. Voltando atrás, constato que são as idéias de desigualdade/diferença que marcam nosso modo de pensar.

Volto a perguntar: ceticismo? Pessimismo?...

Não! Nem um pouco! Na prática, é o que vivencio, é o que todos vivenciam a revelia do discurso. E é por aí que me foi possível considerar a noção de “igualdade unilateral”. Efetivamente o significado/sentido desta tem a ver com a falta de prática da tão discursada igualdade.
   
Sim! Muitos falam e a reivindicam sem, contudo, se dispor a praticá-la.

Segundo a noção da igualdade unilateral, a unilateralidade reside no fato de que aquilo que penso e espero (e cobro) ser “igual” “serve” só a mim, naquilo que me interessa, e diz respeito à “obrigação” que suponho que o outro deva ter para comigo, sem que eu, do meu lado, me obrigue a ter para com ele. 


Não preciso dizer que esta condição está sempre bem explicita nas várias relações e relacionamentos, gerando desentendimentos, conflitos, rupturas... desigualdade.  

   
O “pretexto” da igualdade sempre esteve e sempre vai estar aí, marcando e permeando nossa vida, sem que esta faça muito efeito, ou sem produzir o efeito que verdadeiramente ela exige. Somos hipócritas o bastante para fazer do pretexto da igualdade a “aparência” da nossa vida, e desta, o “móvel” das nossas relações e ações. De nós, além do discurso, nenhuma intenção de nos propor a rever-nos e por em prática o que falamos.
    
É mais fácil estar encobertos, protegidos, atrás de um discurso, do que admitir que não somos capazes de ser o que dizemos ser e fazer o que é preciso fazer. 
   

Há hipocrisia o bastante para nos mantermos sob o véu da igualdade sem, no entanto, admitirmos que não há outro caminho senão o da “consciência de ser e estar” (como diz meu amigo). Só por esta via a igualdade deixará de ser unilateral e sairá do discurso.

Usee

Publicado originalmente em 31 de Dezembro de 2011 em http://arqueirohur.blogspot.com.br



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